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sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Foi Show: Vida é Sonho

Foto: Sergio Malcher

No começo da noite desta sexta no SESC Boulevard (Belém), Renato Torres fez um show lindo e surpreendente, que já enquanto assistia eu tinha na conta de ser o melhor que vi neste ano. A surpresa maior foi por se tratar de um show de cunho teatral, à maneira do espetáculo De Tudo, que o artista faz em dupla com o poeta Renato Gusmão (e que já resenhamos aqui http://somdonorte.blogspot.com.br/2012/08/foi-show-de-tudo.html). A exemplo do que ocorre em De Tudo, no Vida é Sonho nada se ouve que não seja letra de canção ou verso de poesia, dando mesmo a sensação de estarmos assistindo a uma peça de teatro (pelo efeito da chamada "quarta parede"). Isto já desde a abertura, na qual Renato, banda e atores convidados descem a escada do SESC, vindo do andar superior até o palco, recitando um poema (na verdade, eram dois textos: enquanto os convidados Vitor Nina, Carol Magno e Daiane Gasparetto diziam um texto do próprio Renato, "Leva Teus Sonhos a Sério", ele respondia com um poema de Ricardo Reis, "Sei Bem"), até que a banda se posiciona no palco e os atores vão para a sacada do SESC. 

Não era assim na estréia deste show, em 20 de abril de 2012, uma sexta. Numa apresentação igualmente bela (que resenhamos aqui - http://somdonorte.blogspot.com.br/2012/04/foi-show-aila-renato-torres-felipe.html), no mesmo local e contando com a mesma banda (Rubens Stanislaw - baixo, Rodrigo Ferreira - piano e teclado, Diego Xavier - bandolim e vocais, e João Paulo - percussão, além de ter na ocasião a cantora Camila Honda como backing vocal), foi lançado o projeto solo de Renato Torres, que dificilmente até então se apresentava sem os parceiros de sua banda Clepsidra (Maurício Panzera - baixo e Arthur Kunz - bateria). O show Vida é Sonho voltou a ser apresentado, também no SESC, na sexta seguinte, 27. Outra diferença é que em 2012 Renato encerrou o show com uma música que não era sua - "Feito para Acabar", de Marcelo Jeneci. Já hoje o repertório era todo seu, assinado com parceiros do quilate de Paulo Vieira, Dionelpho Jr., Jorge Andrade, Daiane Gasparetto, Nanna Reis (cuja presença chegou a ser anunciada no flyer do show, mas não se confirmou), Valéria Fagundes, Ronaldo Silva e Floriano.  

Após o poema de abertura, Renato e banda tocam "Eu que Não Sei de Nada" (parceria com Nanna Reis), seguindo-se a canção-título do show, "Vida é Sonho", parceria sua com a pianista mineira Alice Belém, e que Renato canta habitualmente em shows, seus ou da parceira Juliana Sinimbú (aliás foi num dueto de "Vida é Sonho" no primeiro show solo dela, Daqui pra Frente, em 2007, que começou a parceria de Juliana com a banda Clepsidra). Logo depois, Renato cantou "Manhã de Janeiro" (parceria com Edir Gaya), e pouco depois Daiane Gasparetto, sem anúncio algum, saiu da sacada pra fazer dueto em "Amanhecer" (aqui um dos momentos mais hilários da noite - fiel à diretriz de nada dizer que não fosse verso de poema ou canção, Renato chamou a atenção do técnico de som Rui para a necessidade de entregar um microfone a Daiane repetindo umas cinco vezes o verso Dai a ela o que vês..., que, como me disse Renato após o show, "por incrível que pareça, faz parte da letra da canção 'Musa Música', minha e do Dionelpho, que usei para anunciá-la"). "Amanhecer" é de autoria de Renato com a própria Daiane Gasparetto. 

Renato e Daiane
(Foto: Sergio Malcher)

Enquanto o show principal, digamos, acontecia no palco, os atores na sacada davam um show à parte, em especial Carol Magno, que jamais saiu do personagem, a todo instante podia ser vista dançando (com máscara ou sem) ou imitando o pianista Rodrigo Ferreira. Daiane às vezes dançava. Vitor manteve a aparente embriaguez de seu personagem (que, no começo dos trabalhos, parecia que iria cair da escada do SESC, mas na real o vinho que tinha em sua garrafa não passava de suco de uva ;) Uma pena que esse show à parte foi visto por bem pouca gente, apenas os que, como eu, estavam sentados nas cadeiras de frente pro palco, bem junto às sacadas. Eu via aquilo e ficava pensando o que passaria na cabeça de quem estivesse na rua àquela hora. Fiquei sabendo ao final do show, quando um casal que conversava com um amigo meu comentou: A gente entrou porque viu gente na sacada e pensou: "O show tá tão louco que a galera tá dançando até na sacada já!"

Seguiu-se a canção "Que Quer Dizer Cativar?" (a única do show de autoria unicamente de Renato, e cujo estilo de abrir perguntas na letra, sem que se chegue necessariamente a uma resposta conclusiva, me lembrou Gilberto Gil), logo depois um poema dito por Carol (que, sem máscara, abriu a porta da sacada e falou o poema, sem microfone, o que pode ter prejudicado a compreensão de quem estava longe. O texto era o começo do "Poema de Não Acordar", do próprio Renato) e outra música, "Quem Faz uma Canção" (parceria com Jorge Andrade). Ao final desta, a banda sai do palco, e Renato tira o violão dos ombros, enquanto diz um poema de modo um pouco matuto, falando em fulô, para dizer que a gente vai floriano, modo inventivo de chamar o parceiro Floriano ao palco. Assumindo o violão, Floriano acompanhou Renato em dois temas ("Canto que Ama e Ondeia" e "A Canção Mais Sincera", as duas parcerias de Renato com Floriano). Belas músicas, com boas passagens em terças, que me animam a dizer: Renato e Floriano deveriam fazer um show inteiro juntos. Pensem nisso, rapazes. 


Renato Torres com Floriano
(Foto: Luciana Brandão Carreira)

Após Renato fazer seu único número solo ("Viração", parceria com Paulo Vieira), seguido de um poema dito por Vitor (outro trecho do "Poema de Não Acordar"), a banda volta ao palco para acompanhar "O Mar" (parceria com Henry Burnett). 

O que se seguiu foi histórico: Renato conseguiu reunir, quase completa, a primeira banda com a qual saiu de Belém para tocar (no Festival de Inverno de Ouro Preto, em Minas Gerais, em 1996) - a Boca de Luar. Foram chamados, também através de um poema citando seus nomes, a cantora Valéria Fagundes, o percussionista Dionelpho Júnior e o baixista Maurício Panzera - faltou apenas o percussionista Cristiano Costa, que hoje mora em São Paulo. A canção apresentada tinha o nome do grupo, "Boca de Luar" (parceria com Valéria Fagundes). 

Daiane, que saíra da sacada e estava junto à parede brincando com um jarro para flores cheio d'água, diz o final do "Poema de Não Acordar", enquanto a banda volta ao palco para tocar "Cavalo Marinho", parceria de Renato com Ronaldo Silva, que encerra o CD A Fim de Onda, de Luê, lançado em marçoDionelpho Jr. volta ao palco para tocar pandeiro no número final, "Comum de Dois" (parceria com Dionelpho Jr), e todos saem do palco enquanto Vítor, Carol, Daiane e Renato recitam mais um poema: "A Vida é Sonho", do autor espanhol Calderón de la Barca, que inspirou o título do espetáculo. 

Bueno, quem não foi hoje marcou uma touca violentíssima. O show não tem reapresentação prevista. Renato chegou a falar numa volta do espetáculo quando conseguir lançar o CD Vida é Sonho (o que prevê que ocorra para meados de 2014, até porque no momento as gravações nem começaram). Eu espero que não seja necessário aguardar tanto, afinal nada impede que se volte a fazer o show mesmo antes do CD estar pronto. Fora isso, há uma gravação em vídeo do show de hoje, que como Renato me falou deve ser disponibilizado na internet em breve. 

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