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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Foi Show: Raízes do Bolão

Fotos: Reginaldo Conceição


Acabou há pouco no SESC Boulevard (Belém) a belíssima apresentação do grupo Raízes do Bolão, de Macapá - mais exatamente do Quilombo do Curiaú. O grupo encerrava na capital paraense a primeira parte da extensa excursão do projeto Sonora Brasil, que o levou este ano a conhecer 56 cidades do Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste (a outra parte, bem como o Sudeste e o Sul, ficaram para 2014), dentro da programação Tambores e Batuques.



O evento teve como mestre de cerimônias a senhora Esmeraldina dos Santos, filha da Tia Chiquinha do Curiaú (que completou recentemente 93 anos - e, como disse a letra de uma das músicas, ainda dança e faz festa). Antes de  cada canção que seria entoada pela própria Esmeraldina, fosse marabaixo ou batuque, conhecíamos a história que originou a música, o que acrescentou muito ao espetáculo. Muitos dos aficionados por marabaixo, por exemplo, já sabiam que "Aonde Tu Vai, Rapaz?" (Raimundo Ladislau) fala da expulsão dos negros da orla de Macapá - aí eles precisaram fazer sua morada "lá pros campos do Laguinho". Mas eu ao menos não imagina que "Patavina", um ladrão (ou seja, canção de marabaixo) da própria Tia Chiquinha, se referia a uma disputa envolvendo a derrubada de uma cerca que Raimundo Ladislau colocara para o gado não invadir a roça, disputa essa que foi parar na delegacia. Já "Lago das Flores", de Joaquim Laurindo, teve como inspiração a briga iniciada porque João de Paula saíra de casa dizendo que ia caçar porcos do mato, e voltou com um porco morto que pertencia a um vizinho, seu Guardenso - o que levou Laurindo a escrever Eu não sei, eu não sabia,/ Pra mim vieram contar/ João de Paulo matou meu porco/ Na mata dos araçás// (...) No dia 15 de abril/ Tive um prejuízo imenso/ João de Paulo matou meu porco/ Que eu comprei do Guardenso."


A primeira parte do espetáculo foi toda de marabaixos como os citados. Aos poucos, tocadores e dançarinas foram se soltando, acompanhando a própria gradação do show - as músicas, a princípio tristonhas, foram se tornando progressivamente mais animadas e contagiando o público (que infelizmente foi em número muito reduzido). A apresentação, realizada no auditório do SESC, não utilizou de nenhuma amplificação de som, nem para vozes nem para instrumentos (ao final do show, Esmeraldina me contou que o mesmo ocorreu em todas as 56 cidades que o grupo já percorreu). 


Finda a primeira parte, Mestre Pedro Bolão (à esquerda na foto acima) falou de como se dão as festas no Curiaú, e como, quando criança, ele aprendeu o batuque e o marabaixo com os pais, sem a necessidade de passar por oficinas de percussão, o que entende hoje ser uma necessidade, já que os tempos são outros. Chegou a culpar a internet pelo desvio dos mais novos das tradições: "nossa criançada às vezes falta aula pra ficar o dia na lan house". 

Seguiu-se então a parte de batuques, em que as dançarinas evoluíram com mais liberdade pelo palco, geralmente postadas atrás dos tocadores. O primeiro batuque apresentado foi "São Joaquim", em homenagem ao padroeiro do Curiaú, cuja festa se realiza anualmente em agosto (menos neste ano, em que o Raízes estava se apresentando em Pernambuco, e coincidentemente morreu um membro da comunidade do Curiaú; Mestre Pedro me relatou que se morre alguém da comunidade próxima da data da festa, esta é cancelada). 

Outro batuque cantado hoje se inspirou na briga de duas mulheres por causa de um homem que ambas disputavam - "Eu vi duas mulher brigar/ A Josefa Borboleta e a Maria Tacacá.// A Maria foi quem disse/ Hoje eu vou te dá na boca/ Que é pra tu largar meu home/ Pra tu ver que eu não sou sopa". Mas, segundo Esmeraldina, no fim ele não ficou com nenhuma das duas...

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