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domingo, 22 de abril de 2012

Papo Cabeça: A internet não ameaça a cultura brasileira


  • Fato 1 – 21 de março de 2012. A ministra da Cultura, Ana de Hollanda, afirma no Congresso Nacional seu temor de que a pirataria através da internet irá matar a produção cultural brasileira.

  • Fato 2 – 31 de março de 2012. No programa Altas Horas (TV Globo), Gaby Amarantos e Fernanda Takai cantam “Pimenta com Sal”, de Eliakin Rufino, realizando assim talvez uma das maiores projeções recentes da cultura de Roraima.


O que um fato tem a ver com o outro? Penso que muito. Vou transcrever a parte da fala da ministra dita na audiência pública na Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados, referente à questão digital: “Hoje em dia a pirataria é feita assim. É copiado através da internet, e isso se multiplica, está sendo distribuído e vendido pela internet. Daí a preocupação do MinC com essas questões, que estão facilitando a pirataria. O MinC tem que ter uma preocupação com a preservação e com a condição de se produzir culturalmente sem que isso seja copiado como se não tivesse trabalho investido. Isso vai matar a produção cultural brasileira se não tomarmos cuidado.”

Vejam que, na concepção da ministra, a produção cultural brasileira seria algo que se realiza totalmente fora da internet, e esta seria um canal para cópia, distribuição e venda ilegais. É, para dizer o mínimo, uma forma muito rasa de entender os dois fenômenos citados – a produção cultural brasileira e a internet. É desconhecer, por exemplo, que a internet pode ser um canal para a difusão – inclusive, autorizada e legal (no sentido jurídico da palavra) – desta produção. Recentemente o site do Pato Fu, banda da qual Fernanda Takai é vocalista, passou a oferecer para download todos seus CDs, seguindo o exemplo dado por Hermeto Paschoal. Gaby Amarantos também disponibilizou para baixar em seu site uma prévia do seu CD Treme (três faixas que reuni no EP Xirley Xarque - http://pagsocial.com/d/0FR.aspx)

Vemos, portanto, que a internet pode ter um papel importante na difusão da produção cultural brasileira. E pode ainda ter outro papel, que qualifico de fundamental, como estimulador desta mesma produção. Um bom exemplo disto é a história de como “Pimenta com Sal” chegou ao Altas Horas.

Em agosto de 2009, poucas semanas depois que coloquei no ar meu blog Som do Norte, recebi uma mensagem da cantora roraimense Euterpe, me convidando a acessar sua página no MySpace, que continha nove faixas do seu CD Batida Brasileira. Uma das que mais gostei foi “Pimenta com Sal”, que ali ouvi pela primeira vez. Em abril de 2010, destaquei o Batida Brasileira como “Disco do Mês” do Som do Norte. Tanto no MySpace quanto na caixinha cantante do meu blog, não havia como baixar a música, impossibilitando sua “cópia pirata pela internet” mas não impedindo de modo algum que o trabalho de Euterpe ficasse conhecido e fosse destacado, na mesma época, pelo jornalista Nelson Motta e pela rádio Educadora de Salvador.


Paralelo a isto, Gaby Amarantos começava a se tornar mais conhecida do público brasileiro depois de participar dos festivais Se Rasgum 2009 e Rec-Beat 2010, passando a cantar com frequência com a Orquestra Imperial, no Rio de Janeiro. Várias vezes, nessas participações, cantava “Pimenta com Sal” em dueto com Nina Becker. O dueto foi repetido no show de Nina no primeiro Conexão Vivo Belém, em junho de 2010. Logo após o show, Gaby perguntou-me se eu sabia quem era o autor da música, pois ela gostaria de gravá-la no disco que iria começar a produzir em breve (justamente o Treme que chega às lojas em breve). Já contei esta história no Som do Norte - http://somdonorte.blogspot.com.br/2010/06/gabi-amarantos-vai-gravar-pimenta-com.html

Aqui se unem os dois fatos citados no começo do texto – foi a internet que permitiu que Euterpe localizasse meu blog e que possibilitou que eu conhecesse e depois destacasse tanto seu trabalho quanto o de Eliakin Rufino, produtor e principal parceiro do Batida Brasileira, e acabasse sendo o elo de ligação entre Eliakin e Gaby, que levou ao recente dueto dela com Fernanda Takai no Altas Horas. Alguma ameaça à produção cultural brasileira aqui?

Finalmente, é preciso dizer que mesmo artistas consagrados da música brasileira vêm utilizando a internet como aliada, e não inimiga, de seu trabalho. Marisa Monte, por exemplo, iniciou a divulgação de seu novo CD O que Você quer Saber de Verdade, em outubro do ano passado, disponibilizando a faixa “Ainda Bem” para download gratuito. Poucos meses antes, Chico Buarque promoveu o lançamento de seu novo CD Chico através de um hotsite, comentando diariamente em vídeo uma faixa, que era então disponibilizada para download pago para assinantes. Não acredito que Ana de Hollanda desconheça estes casos, ao menos este úlitimo – afinal, Chico Buarque é seu irmão. 

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